08 de agosto de 2015

Eu, racista

“O único motivo pelo qual vocês dizem que racismo não existe é porque vocês gostariam que não existisse. Mas é mentira. Venho de um país (Nigéria) em que raça não importava; eu não me enxergava como negra e eu só passei a fazer isso quando vim para os Estados Unidos. Quando você é negro aqui e se apaixona por alguém branco, a raça não importa quando vocês dois estão sozinhos. Mas no minuto em que você bota o pé pra fora de casa, a raça importa. Mas nós não falamos disso. Nós não contamos aos nosso parceiros brancos as pequenas coisas que nos incomodam e as coisas que nós gostaríamos que eles entendessem melhor porque temos medo de que eles digam que estamos exagerando, levando as coisas muito a sério. Temos medo que digam, olha como avançamos, há quarenta anos seria até mesmo ilegal nós andarmos juntos blá blá blá. Sabe o que pensamos nessas horas? Pensamos que é totalmente surreal que isso tenha sido ilegal algum dia! Mas nós ficamos quietos. Nós vamos deixando acumular e quando vamos a jantares liberais como esse não falamos de racismo para manter nossos amiguinhos de esquerda na zona de conforto. É sério, falo por experiência própria.”
– Chimamanda Ngozi Adichie, Americanah

Esse texto é a transcrição traduzida de um sermão dado por John Metta para uma plateia majoritariamente branca na Bethel Congregational United Church of Christ em 28 de junho deste ano. O sermão começou com a leitura da história do Bom Samaritano e desta ótima citação do livro Americanah de Chimamanda Ngozi Adichie.


Algumas semanas atrás, eu estava debatendo o que eu iria falar nesse sermão. Eu disse ao Pastor Kelly Ryan que tinha grande receio em falar a respeito de um assunto sobre o qual eu penso todos os dias.

Então, um terrorista matou nove pessoas inocentes em uma igreja que eu costumava frequentar, em uma cidade que eu ainda considero meu lar. Nesse momento, eu soube que, apesar da minha insegurança, eu precisava falar da questão racial.

Veja bem, eu não falo sobre racismo com brancos.

Para ilustrar porque, vou contar uma história:


Há mais ou menos 15 anos, ocorreu uma conversa entre minha tia, que é branca e mora em Nova Iorque, e minha irmã, que é negra e vive na Carolina do Norte. Essa conversa pode ser sintetizada em única frase, dita pela minha irmã:

“A única diferença entre as pessoas do Norte e do Sul (dos Estados Unidos) é que, cá embaixo, pelo menos as pessoas são honestas a respeito de serem racistas.”

Obviamente a conversa se estendeu para muito além disso, mas acredito que ela pode ser resumida nessa única frase porque foi isso que minha tia branca fez. Mais de uma década depois, é dessa frase que ela ainda fala. E esse se tornou o aspecto único e mais relevante na relação entre essa tia e minha família negra. Ela ainda se sente magoada pela sugestão de que ela, uma boa pessoa liberal que vive em Nova Iorque e tem parentes negros, é racista.

Isso ilustra perfeitamente a razão pela qual eu não falo sobre raça com pessoas brancas. Até mesmo, e especialmente, com minha própria família.


Eu amo minha tia. Na verdade ela é minha tia favorita e, acredite em mim, eu tenho muitas tias incríveis. Mas, nesse caso, os fatos favorecem o ponto de vista da minha irmã.

O estado de Nova Iorque é um dos mais segregados do país. A cidade de Buffalo, onde vive minha tia, possui um dos dez sistemas educacionais mais segregacionistas do país. A desigualdade racial na área em que ela habita é tão grave que foi pauta de um relatório da Civil Rights Action Network e da NAACP.Estes, porém, são fatos que minha tia não precisa saber.


Ela não precisa lidar com a desigualdade racial e a opressão que acontecem ao seu redor. Sendo branca, ela continua a desfrutar de privilégios e subir de vida.


Ela saiu da área em que eu cresci e se mudou para uma outra com melhores escolas. Ela não precisa experienciar o racismo e, portanto, ele não existe para ela.

Ela não se toca de que o próprio fato de ela ter se mudado de um bairro predominantemente negro para viver em um subúrbio branco é um reflexo do racismo. Ela não precisa perceber que “melhores escolas” significam exclusivamente “escolas mais brancas”.

Eu não falo sobre racismo com pessoas brancas porque eu já vi muitas vezes essa discussão não chegar a lugar algum. Quando eu era mais novo, pensava que era porque todos os brancos são racistas. Recentemente, eu passei a entender que se trata de algo mais complexo que isso.


Para entender, você precisa saber que indivíduos negros pensam dentro do contexto de comunidade negra.

Não vemos o assassinato de uma criança negra inocente em outro estado como algo distante de nós, porque sabemos, visceralmente, que poderia ter sido nosso filho, nossos familiares ou até nós mesmos.

O assassinato de Walter Scott na cidade de North Charleston me tocou porque Walter Scott foi taxado pela mídia como um vagabundo e criminoso – mas quando você toma conhecimento dos fatos, ele era um homem praticamente indistinguível de meu próprio pai.

O racismo nos afeta diretamente porque o fato dessa tragédia ter ocorrido em um lugar distante ou com um negro desconhecido é somente uma coincidência, um acidente. Poderia facilmente acontecer com qualquer um de nós, aqui e agora.

Negros pensam em termos de comunidade, porque nós vivemos em uma sociedade em que as estruturas políticas e sociais nos tratam como negros. Brancos não pensam em termos de comunidade. Brancos possuem o privilégio de interagir com as estruturas políticas e sociais como indivíduos. Você é apenas “você”, eu sou “um daqueles”. Brancos normalmente não são afetados diretamente pela opressão racial nem mesmo quando ela acontece em sua própria vizinhança, e menos ainda quando acontece em outras regiões. Eles não sentem a necessidade, e nem mesmo a vontade, de pensar em termos de grupo. Eles são beneficiados pelo sistema e então não se preocupam com isso.

O que os preocupa são ataques a seu próprio caráter. Para a minha tia, a sugestão de que “as pessoas no Norte são racistas” é um ataque pessoal. Ela não consegue diferenciar sua participação em um sistema de desigualdade racial (oportunidades de ascensão social, não ser julgada pela cor da sua pele, ter a opção de se mudar para um bairro branco, etc.) da acusação de que ela, como indivíduo, é racista. Sendo incapaz de fazer essa diferenciação, pessoas brancas em geral defendem com unhas e dentes que não são racistas, um dizem que esse é um problema inexistente, uma vez que elas não o veem.

O resultado disso é uma incessante e repetitiva argumentação na qual uma pessoa negra diz “O racismo ainda existe, é real” e uma pessoa branca diz “Você está errado, eu não sou racista. Não entendo onde você está vendo racismo.” A resposta imediata da minha tia não é “isso é errado, temos que melhorar.” Não, sua reação é defensiva: “Não é minha culpa, eu não fiz nada. Você está errado.”


Racismo não é escravidão.


Como disse o presidente Obama, a questão não é apenas evitar a palavra nigger. Racismo não é mais bebedouros exclusivos para brancos ou ser obrigado a sentar no fundo do ônibus por ser negro. Martin Luther King não pôs fim ao racismo. Racismo é um policial bater em um homem inocente até que ele fique aleijado. É uma criança de 12 anos que leva um tiro por estar brincando com uma arminha de brinquedo, num estado onde a lei permite o porte de armas de fogo.

O racismo é mais sutil que esses exemplos, tem mais nuances. Racismo é o fato de que “branco” significa “normal” e que todo o resto é “diferente”. Racismo é aceitarmos que todo o elenco de O Senhor dos Anéis seja branco por causa de uma suposta “precisão histórica”, ignorando o fato de que o enredo se passa em um universo totalmente fictício.

Mesmo quando fazemos ficção, nós queremos que ela seja branca.

Racismo é o fato de que nós aceitamos isso. Benedict Cumberbatch interpretando Khan, um indiano, em Jornada nas Estrelas. Existe alguém mais branco que Benedict Cumberbatch? Alô? Eles precisavam de um elenco “menos étnico” só porque eles já tinham uma atriz negra interpretando a personagem Uhura? Isso é racismo.

Uma vez que você passa a enxergar, o racismo está por toda a parte.


Aprendemos isso desde criança quando nossos pais nos chamam de canto para conversar e dizer que o pai do nosso amiguinho não está doente ou de mau humor, ele só não quer o filho dele brincando com você. Crianças negras aprendem desde cedo o que é viver na Matrix. Não nos é dada a chance de escolher entre a pílula azul ou a pílula vermelha. O sistema foi criado para pessoas brancas, como a minha tia, para que elas não precisem nem mesmo refletir sobre ele.


Nós não temos nem o direito de falar do assunto.


Conviver diariamente com o racismo institucionalizado e ainda ser obrigado a argumentar a sua própria existência é cansativo, deprimente e irritante. Além do que, se expressarmos qualquer emoção ao falar disso, somos policiados e taxados de raivosos. Na verdade, a figura do negro raivoso é peça chave em qualquer discussão racial. Quando um “negro raivoso” se pronuncia, seus argumentos são automaticamente invalidados, porque ele está sendo “demasiadamente sensível”, “muito emocional”, ou está usando sua raça como escudo. Ou pior, somos acusados de racistas. (Alguma pessoa com o mínimo de bom senso é capaz de acreditar que uma minoria sistematicamente oprimida conseguiria oprimir aqueles que detém o poder?)

Aí que mora a ironia, aquilo que todos negros sabemos e que nenhuma pessoa branca vai admitir: toda a discussão racial nos Estados Unidos gira em torno da preocupação em não ferir os sentimentos dos brancos.

Pergunte isso a qualquer negro e ele irá te confirmar. O assassinato, estupro, encarceramento e exclusão sistemática de milhares e milhares de inocentes incomodam menos do que a mera sugestão de que uma pessoa branca possa ser cúmplice de um sistema de desigualdade racial.

Assim é o país onde vivemos. As vidas de milhões de negros não valem a mágoa de um único branco.

Negros e brancos não discutem a questão racial. Nós, negros, refletimos enquanto grupo sobre o que é viver em uma sociedade racista. Já os brancos, pensando como indivíduos, se recusam a reconhecer a opressão que eles mesmos reproduzem e só sabem proteger sua inocência e bondade individual. Fazendo isso, continuam a negar a existência do racismo.

Discutir sobre racismo do ponto de vista individual não é o caminho.

Diferente do que o massacre de Charleston faz parecer, pessoas não estão morrendo por causa de um ou outro racista extremista, mas sim por conta de indivíduos que perpetuam um sistema de desigualdade racial enquanto insistem em defender a crença de que não fazem parte disso.


Pessoas morrem porque apoiamos uma sociedade racista que justifica que brancos assassinem negros.


Exemplo disso é a forma como um assassino muçulmano é chamado de terrorista islâmico; como um ladrão mexicano atesta a urgência de um plano de controle da imigração; como um homem negro inocente e desarmado, que leva um tiro pelas costas de um policial, é taxado pela mídia de vândalo e criminoso.

Em oposição, um branco racista hasteando a bandeira dos Estados Confederados é visto como “problemático” e “desajustado”, de forma que as pessoas “não conseguem entender como alguém poderia fazer tal coisa.”

Um branco que fuma maconha é visto como “hippie” e um negro que faz a mesma coisa é um criminoso. O fato de que há 20 negros para cada branco nas prisões americanas deixa isso evidente.

Uma manchete do The Independent resume isso de forma interessante: “Massacre de Charleston: Assassinos negros e muçulmanos são terroristas e criminosos. Por que atiradores brancos são chamados de ‘doentes mentais’?”

Vou ler outra vez: “Assassinos negros e muçulmanos são terroristas e criminosos. Por que atiradores brancos são chamados de ‘doentes mentais’?”

Vocês percebem? É incrivelmente sutil. O artigo fala especificamente da forma como tratamos diferentemente as pessoas de cor nesse país e, na própria manchete, os brancos são “atiradores” e os negros e muçulmanos são “assassinos”.

Mesmo quando se fala de racismo, usamos uma linguagem racista que faz com que os negros pareçam perigosos e os brancos “nem tão ruins assim”.

Reflita sobre isso por um momento e então se pergunte porque os negros se irritam quando discutem racismo.


A verdade é que nos Estados Unidos os brancos são fundamentalmente bons e, então, quando um branco comete um crime, é um sinal de que ele, como indivíduo, é mau. Suas ações pessoais não são indicativo de nenhuma construção social mais ampla. Mesmo o fato de que o número de grupos violentos e intolerantes, compostos majoritariamente por homens brancos aumenta a cada dia, e de que *todos* os assassinos em série são homens brancos, não é suficiente para abalar a crença na bondade do homem branco. A real é que gostamos tanto de assassinos em série que até mesmo fazemos séries sobre eles.

Os brancos em geral são bons e cometem erros apenas como indivíduos.

Pessoas de cor, sobretudo os negros (mas cara, temos muito o que falar dos mexicanos nesse país…) são vistos como fundamentalmente maus. Quando um deles se destaca, nós imediatamente o usamos como exemplo pra mostrar que racismo não existe. Mas quando algum negro comete um erro, aí é uma prova fatal de que todo os outros são, via de regra, maus.

Todas essas coisas, as expectativas, o tratamento, o pensamento e todo o sistema social velado que coloca o branco na posição de “bom” e “normal” e o negro na posição de “outro” e “ruim” – isso tudo é racismo.


Brancos, cada um de vocês é cúmplice desse racismo porque vocês se beneficiam diretamente dele.


É por isso que eu não gosto dessa história do bom samaritano. Todo mundo gosta de pensar sobre si mesmo como uma pessoa que, ao ver alguém ser espancado e agredido, pára para ajudar.

Isso é muito fácil.


Se eu pudesse reescrever essa história, escreveria do ponto de vista negro. E se a pessoa não estivesse sangrando e sendo espancada? E se não fosse tão óbvio assim? E se ela estivesse sendo sistematicamente excluída por uma série de mecanismos feitos para que fosse mais fácil para você se dar bem na vida?

Você faria alguma coisa? Ou você iria, como a maior parte das pessoas, ficar calado e só deixar acontecer?


Isso é o que eu quero te dizer: o racismo está tão profundamente enraizado nesse país não por causa do radical ultra-conservador que o pratica abertamente, e sim por conta do silêncio e da preocupação em preservar os sentimentos dos brancos liberais.

É isso o que eu gostaria de dizer, mas eu não posso. Não posso porque passei a vida inteira evitando conversar sobre raça com pessoas brancas. De certa forma, a culpa também é minha. O racismo existe porque eu, como uma pessoa negra, não te desafio a olhar para ele.


O racismo existe porque eu, e não você, estou calado.


Mas perceba que eu estou preso em uma emboscada perfeita, porque assim que eu começo a apontar o racismo, me torno “o negro raivoso” e a discussão termina por ai. Estou de mãos atadas.

Todas as vozes negras no mundo falando sobre racismo o tempo todo não conseguem fazer com que os brancos parem para refletir – mas basta um John Stewart (apresentador de TV americano) falar sobre Charleston que um monte de brancos começam a falar sobre o assunto. Esse é o mundo em que vivemos. Os negros não vão conseguir mudar isso enquanto os brancos continuarem quietos e surdos para nossas palavras.

Pessoas brancas estão em uma posição de poder nesse país por causa do racismo. A questão é: eles tem coragem o suficiente para usar esse poder para criticar o sistema que lhes proporcionou isso?

Então eu estou te pedindo ajuda. Repare. Fale. Não deixe passar. Não fique assistindo em silêncio. Ajude a construir um mundo onde o bom samaritano nunca tenha que chegar ao ponto de ver alguém sendo espancado e sangrando.


Quanto a mim, eu não vou mais ficar calado.

Eu vou tentar falar tranquilamente e com cuidado, mas isso vai ser difícil. Porque está se tornando cada vez mais difícil para mim pensar sobre o cuidado com os sentimentos dos brancos sendo que os brancos não parecem se importar nem um pouco com a perda de tantas vidas negras.

Traduzido por Jay Viegas e Vinícius Pereira.
Publicado originalmente em Those People.